Bernardo Pinto de Almeida

 
A AMIZADE
 
Os amigos não partilham qualquer coisa (um nascimento, uma lei,
um lugar, um gosto): eles estão sempre já
partilhados pela experiência da amizade. A amizade é a
partilha que precede qualquer outra partilha.
 
— Giorgio Agamben, L'Amitié. Paris: Éditions Payot & Rivages, 2007
 
A Amizade é, de entre o conjunto dos muitos actos relativos que desenham uma vida, um dos poucos que exige um cometimento absoluto. Porque o acto que a funda, isto é, o seu acontecer, gera um mundo, uma comunidade secreta e com leis próprias (que não se conformam com as demais mas que são tácitas) que se recorta do restante mundo e que, no entanto, ainda assim habitando-o mesmo que numa margem, o expande e torna mais nosso, como um território oferecido em dádiva, como um puro dom.
A Amizade, que é parente próxima do amor, todavia distingue-se deste pela sua independência e, sobretudo, pela sua quase absoluta não-necessidade. O que significa que poderíamos viver sem ela, e cumprir sem ela a maioria do nosso destino, mas que sem o amor definharíamos e tornar-nos-íamos ou em seres monstruosos de egoísmo, com ilimitadas capacidades de ferir ou, pior ainda, em seres deploráveis e sem qualquer sustento, entregues ao mais total abandono. Mesmo as mais abandonadas figuras de Beckett acedem ao amor.
A Amizade não é necessária enquanto a não conhecemos. Ninguém em verdade poderia afirmar precisar de amigos antes de os ter encontrado. E se, por acaso, aquele que tomávamos por um Amigo se revela falso, traindo o dever a que a Amizade obriga, quase imediatamente o podemos esquecer, mesmo se com mágoa, porque na natureza mesma da Amizade reside, como uma sua força inexpugnável, a impossibilidade da traição, cujo simples aflorar não apenas quebra a ilusão dela, como a brutalidade e o choque dessa descoberta nos fazem passar de um estado que em nós abria esse espaço àquele que, traindo-nos, a desmerece, para um outro em que reina o esquecimento e a indiferença.