Júlio Pomar

António Dacosta volta a pintar
 
Quando António e Mimi Dacosta trocaram a sua chambre de bonne (a dois passos de Saint Germain des Prés e na vizinhança das de René Bertholo e Lourdes Castro) por uma verdadeira casa de habitação na banlieue parisiense, Mimi, com a ajuda amiga de Pedro Morais, agenciara já para António um simulacro de atelier, o qual não teve qualquer ação sobre a proverbial indolência do marido, terno ilhéu castiço.
Aconteceu depois a exposição de pintura portuguesa contemporânea na Royal Academy de Londres, por iniciativa de Helmut Wohl, cidadão americano, professor de história da arte na Universidade de Boston e que havia instalado em Portugal a sua residência de verão. Interessando-se progressivamente pela vida cultural portuguesa, fizera amizade com artistas e escritores locais. A política então mais seguida nas raras exposições semelhantes, prescrevia que não haveria cão nem gato que, tendo parido obra de pintura, não devesse ser representado por quadro avulso, o qual naturalmente se iria perder na quase inevitável cacofonia do conjunto.
Contrariando esta tendência, Helmut Wohl selecionara meia dúzia de artistas, meia dúzia ou coisa assim, começando por Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor e vindo até Paula Rego e Ana Hatherly. Entre os autores que escolhera, figurava António Dacosta, que, como se sabe, partira para Paris com uma bolsa de estudo logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com o andar dos tempos, acabara por abandonar a prática ativa da pintura. A prática, digo, porque acerca do que se passava nas artes andava sempre curioso e bem informado, como davam conta as breves crónicas que escrevia para o jornal brasileiro O Estado de São Paulo a convite do então diretor deste, Júlio Mesquita, exilado em Paris, que igualmente delegara no português Novais Teixeira a recensão crítica dos festivais europeus de cinema.
Na pequena viatura de Mimi, Tereza e eu acompanhamos o casal Dacosta numa épica viagem a Londres para assistir à inauguração daquela exposição. António vai nervoso, teima em discutir o itinerário e, naturalmente, engana-se sempre; Paula dá-nos abrigo e a curta estadia passa-se na melhor das disposições.
É depois desta viagem que, nas habituais visitas dos domingos, os amigos do casal Dacosta começam a dar conta de pequenas e inesperadas aparições nas paredes da casa. Raramente ultrapassando a dimensão de uma mão-travessa, representações bizarras pousavam sobre os mais variados materiais: tampas de caixas de papelão ou madeira fina, imagens impressas transformadas, etc.. E quando perguntávamos: “Que é isto, António?”, a resposta era a mesma: “Ah! Não é coisa nenhuma, fiz isso para os meninos, foi por brincadeira”.