José-Augusto França

 
Conheci pessoalmente o António Dacosta em Outubro de 1948, em Paris, apresentados pelo Casais Monteiro, amigo de ambos em Lisboa, no café Deux Magots em St. Saint Germain des Près. Eu vira a exposição de pinturas dele com o António Pedro, em fins de 1940, nas salas da Repe, uma casa de móveis que fechara, na Rua Paiva de Andrada, ao Chiado, que depois foi o dancing Nina’s Bar (e hoje restaurante Rock in Chiado. Tinha dezoito anos, não conhecia nenhum dos expositores; depois fui vendo quadros do Dacosta nos salões de Arte Moderna do SNI, e também as páginas de humor, bem estranho, em que colaborava no semanário Acção, e lendo críticas de arte que publicava no recente Diário Popular (que António Pedro lançara com o amigo comum António Tinoco em 1946). Em fins de 1947, Dacosta foi para Paris, com uma bolsa que Pierre Hourcade lhe obteve, do Institut Français, e de lá continuou ele a enviar críticas de arte para esse vespertino –que viriam a ser reunidas em volume em 1999 com prefácio meu (Dacosta em Paris).
Assim em 1948 conheci António Dacosta, no início de uma camaradagem e de uma amizade que só com o seu desaparecimento terminou, em 1990 – escrevendo então notícia na Colóquio/Artes (n.º 88, Março 1991). Desde 1946, eu ia frequentemente a Paris e Dacosta passou a ser uma relação constante, em longas conversas de café e de exposições visitadas. Ele colaborava então regularmente no grande quotidiano brasileiro O Estado de São Paulo (e eu também, durante alguns anos), representado em Paris por Novais Teixeira, emigrante político português, que pelo António conheci para longa amizade também. Dacosta continuava a fazer para lá críticas de arte – e muitas vezes ele me procurava no hotel ou no café, e as compúnhamos a quatro mãos, para ele enviar à pressa pelo correio. Repetimos mais tarde a experiência para o excelente depoimento que o António deu no catálogo da exposição do António Pedro que realizei na Fundação Gulbenkian em 1979. Foi escrito a uma mesa do Deux Magots.
Entre 1947 e 1970 e muitos, António Dacosta pouco ou nada pintou, por falta de condições de vida e alguma, ou muita, preguiça. Eu vi ainda, no hotel do Quai Voltaire uma composição que realizara, abstractizante, em forma de biombo e que terá sido das últimas obras então pintadas; mas em 1949 deu-me um pequeno quadro (que intitulou Espaço Ocupado) e logo a seguir enviou outro para a exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (Janeiro 1949), em que amistosamente se integrou, intitulado Cuidado com os Filhos, composição expressionista e abstractizante que o Almada Negreiros adquiriu, tendo o quadro que me fora oferecido tido também então comprador (o jornalista António Neves Pedro; obra perdida e sem reprodução). Enviei ao Dacosta o pagamento obtido para, em troca, haver outro quadro que, em verdade, nunca chegou a vir… Mas no desfazer do atelier do António Pedro, em Campo de Ourique (em 1948), vieram-me às mãos vários quadros e desenhos de Dacosta: o Amor Jacente (desde 2000 em colecção particular), Duas Figuras (desde 2000 no Museu de Angra do Heroísmo, cedida a pedido da viúva do António), uma grande figura de mulher em aguarela de c.1947 e um desenho de c.1940 (ambos no Museu de Tomar, por doação minha); e ainda dois pequenos quadros de figuras, um que dei ao primeiro filho do António (O Passarinheiro), outro que guardo na minha casa de França; outras obras tiveram então outro destino privado. Em 1949 falei do António pela primeira vez, no Balanço das Actividades Surrealistas e em 1951 publiquei um texto sobre Amor Jacente no nº12 de Cadernos de Poesia, intitulado Da Poesia Plástica; no ano seguinte, dirigindo a Galeria de Março, lá realizei uma exposição de obras de Dacosta (Abril 1952), obtidas em várias mãos privadas; e o Rui Mário Gonçalves, dirigindo a galeria de arte da Livraria Buchholz, lá realizou muitos anos depois (Janeiro de 1969) uma exposição de obras suas (muitas delas as já expostas em 1952). Várias vezes, em contexto histórico, escrevi sobre António Dacosta, a primeira em 1949, a última em 2004.