José Luís Porfírio

 
O EXERCÍCIO DA AUSÊNCIA
 
     «Um pedestal de ócio sustinnha as
       Estátuas do vale, inertes de desterro,
       Todas de rosto semelhante, existindo
       De ausência erguida.»
       (António Dacosta, “O trabalho das nossas mãos”, Variante n.º 2, 1943)
 
A Ausência, enquanto sentimento, enquanto conceito, atravessa a vida e a obra, a memória e o estar connosco, ainda e sempre, de António Dacosta; Ausência como presença maior, dir-se-ia, Ausência simultânea do tempo e do espaço, na vida e na morte, na ilha, na beira-mar e no coração do continente: Paris. Tantos anos já depois da sua morte, a Ausência pode sentir-se de um modo mais forte e verificar-se como qualidade e modo de ser. Antes disso ela fora um mito, o mito maior da obra, ou da não obra, de António, “pintor Ausente” nas palavras certeiras de Helena de Freitas1, “perdido talvez para a pintura” como disse José-Augusto França em 19652 e Francisco Bronze reiterou em 19693, dizendo-o em vias de total desaparecimento da cena artística portuguesa.
Conheci António Dacosta em Paris no ano de 1967, por intermédio do Pedro Morais, e desde logo notei a sua capacidade de atenção, distante mas intensa, ao que se passava em torno, tanto no campo dito das artes como na sabedoria do estar e do viver; observava e, quando falava do que tinha visto e entendido, logo se notava a sua capacidade de ver para além do olhar; assim eu ia percebendo, pouco a pouco, a sua ausência da prática artística como um outro modo de estar nela, dispensando o fazer. O seu modo de estar não era exuberante, nem especialmente afirmativo; infiltrava-se como uma sabedoria serena e tranquilamente irónica, cultivando a distância necessária para melhor ver um quadro, apreciar um copo, ou muito simplesmente estar ali. Da pintura própria nada falava, e dos escritos que ia fazendo para o Brasil também não, pois “não tinham importância”, dizia.


1 Maria Helena de Freitas, “A escrita do pintor ‘ausente’”. Expresso, 5 Março 1988.
2 José-Augusto França, “António Pedro e António Dacosta”. Colóquio, n.º 32, Fevereiro 1965. [sublinhado do autor]
3 Francisco Bronze, “António Dacosta em retrospectiva”. Colóquio, n.º 52, Fevereiro 1969.