José Luís Porfírio

 
A ANTÍTESE E A CALMA
 
“Há sempre uma calma e uma antítese da calma”1 
 
Dar a ver a obra de António Dacosta enquanto também se escreve sobre ele no centenário do seu nascimento só pode ser uma tarefa exaltante, “em louvor” do homem e da obra e, no entanto, deve ser muito mais do que uma simples celebração. Desde sempre houve quem a entendesse uma e outro, os homens da escrita Carlos Queiroz e Vitorino Nemésio na primeira hora, logo seguidos, em cumplicidade de vida inteira, por colegas pintores, António Pedro, Júlio Pomar, por críticos de arte também, José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves, e, depois destes, muitos outros, com uma qualidade que me parece ser um condão que Dacosta sabe transmitir a quem dele se abeira. Essa é “a virtude de uma obra [que] reside na adesão apaixonada que provoca imediatamente”2, só peço que o mesmo suceda agora. A obra, os textos e as declarações de António Dacosta guiaram este trabalho, um estudo que tem raízes já fundas num conhecimento antigo do homem e da obra, no comentário crítico a algumas exposições fundamentais e, sobretudo, na organização em Paris, no Centro Cultural da Fundação Gulbenkian, da exposição Scène Ouverte (Cena Aberta) que reunia algumas dezenas de trabalhos do artista e onde, pela primeira, vez me deixei guiar ao sabor da sua obra. Tal como em Paris, esta exposição retoma o título de uma obra fundamental de António Dacosta, modificando-o levemente num sentido que está de acordo com declarações do próprio à RTP em 1969, por ocasião da retrospectiva que Rui Mário Gonçalves organizou na Galeria Buchholz, antecipando aliás a sua obra ainda por acontecer, tal como repetidas vezes sucede em escritos e declarações suas. “Não há passado nem futuro. Só há espaço no mundo”3. Esta luminosa declaração não aparece sozinha – ela surge sempre em entrevista, primeiro à televisão em 1969, a propósito de uma exposição retrospectiva num tempo em que todos, e o próprio por certo também, julgavam que a interrupção da pintura dos anos quarenta era definitiva. Disse então Dacosta: “o tempo é uma dimensão inexistente”4 e repetiu-se depois já em pleno reaparecer público como pintor: “[…] o tempo não me interessa […] Nasce-se todos os dias!”5. Só há espaço no mundo! Uma exposição é isso mesmo, um desenrolar no espaço, e no entanto há nascer e morrer, e no entanto há o exercício da Memória, tão importante para António Dacosta que este até lhe dedica uma série de trabalhos, ou da Saudade, palavra com que inicia uma outra série, porventura a mais longa, dedicada à “água voluptuosa das fontes”6. O corpus da obra, concentrado sobretudo em duas décadas intensas, 1937-1948 e 1980-1990 (prejudicado também no que diz respeito à década inicial pelo incêndio de 1944 que destruiu vários trabalhos), foi durante muito tempo marcante como fronteira entre o conjunto mais reduzido dos anos quarenta e a obra em crescimento contínuo da década final. Tal situação conduziu à ideia“dos dois períodos como momentos antagónicos animados por estéticas diferentes […] mas tentativas mais recentes para encontrar elos de ligação entre as duas fases provaram ser 

1  Declarações de António Dacosta ao programa televisivo Notas de Artes Plásticas, RTP, 1969.
2  Rui Mário Gonçalves, António Dacosta. Lisboa: Galeria Buchholz (catálogo da exposição), 1969.
3  “António Dacosta por António Dacosta”. In António Dacosta. Coord. Miriam Rewald Dacosta. Lisboa: Quetzal Editores e Galeria 111,
1995.
4 António Dacosta, Notas de Artes Plásticas, RTP, 1969.
5  Maria João Avillez, “António Dacosta: O regresso à pintura 35 anos depois”. Expresso, 18 junho 1983.
6 António Dacosta, “Baya”. Diário Popular, 22 Dezembro 1947. In António Dacosta, Dacosta em Paris. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999.