Luís Fagundes Duarte

E o Poeta se fez Pintor
Luiz Fagundes Duarte

Comecemos pelo óbvio: António Dacosta é um dos nomes impor-tantes do movimento surrealista português. Mercê da sua histó-ria pessoal, também se moveu muito à vontade no surrealismo europeu e, particularmente, francês – tendo sido próximo de An-dré Breton, com quem assinou (com outros) o manifesto Rupture inaugurale (1947). Mais do que qualquer outro movimento artís-tico da história cultural europeia, o surrealismo assumiu como sua missão histórica promover a expressão humana sob todas as suas formas (André Breton, Segundo Manifesto do Surrealismo, 1930), sendo que essa expressão era, no começo de tudo, a lingua-gem: "Não é de admirar ver o surrealismo situar-se em primeiro lugar quase unicamente no plano da linguagem, e, menos ainda, vê-lo, ao regressar de qualquer incursão, voltar lá como que pelo prazer de ali proceder como em terra conquistada". Assim escre-veu Breton, e assim fez Dacosta. Dacosta foi um poeta que usava as telas, e as tintas, e os pincéis, e os lápis, e os papéis para construir formas de expressão da sua humanidade, mas foi também um pintor que usava esses mesmos papéis, talvez os mesmos lápis, e de certeza as palavras, e as frases e a língua de todos nós para construir de outra manei-ra as mesmas formas de expressão da sua humanidade.