Ruth Rosengarten

DANDO FORMA AO PRAZER:
ANTÓNIO DACOSTA REVISITADO*
Ruth Rosengarten O regresso de António Dacosta à pintura no final dos anos de 1970, após um hiato de cerca de trinta anos, tem sido amplamente comentado. Este intervalo veio traçar uma linha entre os dois períodos que, ao separá-los, simultaneamente os ligou. De facto, a noção de hiato ou de intervalo, tal como a de obra, só são definíveis a posteriori, considerando-se retrospetivamente toda a carreira do artista. No início, os críticos referiam-se aos dois períodos como opostos, cada um deles com a sua própria estética. No entanto, a partir da década de 1990, são várias as tentativas – que se provaram mais fecundas – para encontrar, ou mesmo criar, laços entre as duas fases, imprimindo ao arco da carreira do artista um contorno mais orgânico e, contudo, mais uno. De facto, tal como expectável, podem-se constatar nos dois períodos pontos de continuidade e, simultaneamente, de descontinuidade. Uma das características que distingue o trabalho inicial da obra mais tardia reside na imagética exaltada, que se revela também na marca da pincelada. Mergulhando numa certa angústia tumescente, estes trabalhos transportam uma carga de culpa da qual a obra posterior parece aliviada. Esta, mais simples, mais luminosa e expansiva, assume uma dimensão que se pode genericamente nomear de “mística”. Mas as duas fases encontram-se unidas, como veremos, por um elo contínuo, se não mesmo idêntico, ao espírito do Surrealismo, bem como pela preocupação profunda e generalizada com a relação entre o sagrado e o profano. Um dos aspetos significantes da cesura existente na obra de Dacosta – uma trajetória que abraçou com uma confessa “preguiça”1 – é incorporar o tema que percorre também a sua obra: o tempo torna-se não só uma preocupação maior, mas surge igualmente, enquanto irrupção e regresso, entretecido na própria malha e substância do trabalho autoral. Ao interromper a sua atividade artística em 1948, Dacosta vai criar as condições para o surgimento de uma nostalgia, que acaba por ser, também, um dos seus temas centrais. (Quase no final da vida, recorda: “Regressei porque senti uma nostalgia pessoal, a letargia em que caíra tornou-me decepcionante aos meus próprios olhos” 2.) Um hiato feito anteriormente – uma deslocação física – quando saiu da sua terra natal, os Açores, para Lisboa, em 1935, estabelecera esta dimensão da distância que viria a assumir um papel fulcral na sua vida e obra. Contudo, houve alturas em que Dacosta negou liminarmente a noção de cesura na sua obra, o sentido de um “antes” e de um “depois”, sublinhando a continuidade, a permanência de ser, uma dimensão existencial de que o ato de pintar era apenas uma parte. “Não recomecei, continuei a ser […] Não se interrompe o que se é, não se deixa de ser quem é, não se recomeça, é-se.”3 Ou, um pouco mais tarde: “Não tenho noção nenhuma do tempo, não houve nenhuma descontinuidade no meu viver. Não existe esse abismo da paragem que convém ao marketing. Parar de pintar não teve no meu caso qualquer drama.”4

* Este texto teve como base um texto de 2006 para um catálogo não publicado.
1 “Sou talvez um preguiçoso contrariado”, em António Dacosta, “A minha pintura é uma impureza que tende para a luz”. O Primeiro de Janeiro, 25 maio 1988.
2 João Pinharanda, “António Dacosta: Saudades deste sítio”. Público (Revista), 9 dezembro 1990.
3Maria João Avillez, “António Dacosta: O regresso à pintura 35 anos depois”. Expresso, 18 junho 1983.
4Bernardo Pinto de Almeida, “Pintar é uma forma de adiar a morte”. O Jornal, 22 julho 1983.