Fernando Rosa Dias

 
ANTÓNIO DACOSTA - A TENTAÇÃO MÍTICA
 
«Não se pinta para o passado nem para o futuro, menos ainda para a eternidade; pinta-se
por uma imperiosa necessidade de presente.»
(António Dacosta)1
 
«Um quadro tem os seus meandros
Ir além da periferia que o fecha é quase um acto ritual
Nada de equívocos. É preciso olhar, esquecer e esperar.»
(António Dacosta, 1943)2
 
António Dacosta apresenta o caso particular de uma obra decidida em dois grandes ciclos, cada qual com as suas fases e desenvolvimentos próprios – e entre eles um interregno, uma longa e mitificada fase de silêncio onde produziu pouco e irregularmente. Isto distingue-o dos seus amigos Almada Negreiros e Júlio Pomar, dois dos mais impressionantes casos de continuada durée da arte portuguesa. Distinto desta continuidade sempre presente, Dacosta fascina pelo impacto das suas duas assomadas criativas entre um longo tempo de parca produção original. Não a força em estar sempre presente, mas de aparecer.
Em 1940, Dacosta era praticamente desconhecido da cena artística portuguesa, mas a exposição desse ano com António Pedro e Pamela Boden, a primeira relevante aparição pública da sua obra, foi o suficiente para um destaque na arte portuguesa da qual não mais saiu. Outra curiosidade para o enquadramento deste primeiro ciclo de Dacosta é o seu lugar relativamente às gerações que se estimaram para a arte portuguesa. Dacosta nasceu em meados da segunda década do século XX, já tarde para pertencer ao segundo modernismo, mas cedo demais para a geração seguinte, nascida já nos anos de 1920 e que assinalaria nos anos de 1940 o neorrealismo, o surrealismo e a abstração. Deste modo, podemos observar nele uma figura de mediação entre a clivagem geracional (a mais sublinhada no interior da história da arte moderna portuguesa).3

1 António Dacosta, «Um tríptico de Lázaro Lozano». Diário Popular, 2 março 1943. In António Dacosta, Dacosta em Paris. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, pp. 24-25.
2 António Dacosta, «O Pintor Mário Eloy». Panorama, n.º 17, outubro 1943. In António Dacosta, Dacosta em Paris, pp.141-142.
3 Nas divisões propostas por José-Augusto França, a década de 1940 protagonizava uma «terceira geração» modernista com o neorrealismo, o surrealismo e a abstracão, que definia, no interior do modernismo, «fazendo propostas de ruptura e pondo problemas inteiramente diferentes». José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX (1911-1961). Lisboa: Bertrand Editora, 1991 (3.ª edição acrescentada), p.13.